Sexta-feira, 19 de Março de 2010

 

Para quem não está dentro da problemática inerente à sobrexplortação pesqueira (abordada noutros posts) abaixo segue um texto que talvez ajude a compreendê-la: 

 

"O caminho para o Fim do Mar

À luz das mais modernas teorias, tudo que hoje conhecemos como vida teve o seu início no mar. Talvez seja por isso que nós, os humanos comuns, olhamos sempre o mar como fonte inesgotável de vida e de recursos. No entanto, neste momento já está provado o erro dessa visão simplista: o «ritmo de vida» das sociedades industrializadas está a levar os recursos marítimos a uma rápida extinção.

Agora, após milhares de anos de pesca de subsistência, em que o equilíbrio das espécies nunca se viu ameaçado, o súbito crescimento demográfico e tecnológico das sociedades tornou-se numa ameaça não só para a fauna mas também para a flora marítima.

O consumo habitual do peixe, que até ao século passado marcava presença apenas nos menus das populações que habitavam à beira-mar, difundiu-se e vulgarizou-se em toda a sociedade industrializada; frotas pesqueiras equipadas com tecnologia de ponta optimizam as quantidades de pescado capturado, maximizando a eficiência e produtividade de cada lide, efectuam o tratamento do pescado em alto-mar e usam as novas técnicas de conservação para transportar o pescado até distâncias nunca antes pensadas.

Actualmente, “a frota pesqueira mundial tem capacidade para quadruplicar as suas capturas, a indústria do palangre lança o equivalente a 1.4 milhões de anzóis por ano e a boca da maior rede de arrasto do mundo é suficientemente larga para acomodar 13 aviões 747.” (excerto do documentário “The end of the Line”, de Rupert Murray).

E a sociedade do imediatismo não olha ao futuro: a pesca em profundidade dizima ecossistemas inteiros, espécies centenárias, recifes com vários milhões de anos encontram-se à beira de extinção, e toda a riqueza do fundo oceânico tende a ser destruída de forma irremediável (1); a aquacultura (50% do peixe consumido) olhada por muitos como «uma tábua de salvação», tem vindo a provar-se ineficaz, levando à poluição dos locais em que é implementada (descargas excessivas), e ao desequilíbrio dos ecossistemas (introdução de espécies não indígenas com os consequentes efeitos sobre a biodiversidade).

Ecossistemas entram lentamente em colapso. A Terra Nova (Canadá) e Glasgow (UK), são dois de muitos exemplos; na Terra Nova, a extinção da maior espécie de bacalhau do mundo originou uma praga de alforrecas; em Glasgow, a extinção do bacalhau provocou uma epidemia da doença do caranguejo fumador nos lagostins da zona, com a qual mais de 70% da população foi afectada. Em ambos os casos a causa directa do colapso foi a ausência do predador.

Porém, nem tudo parece perdido: os repetidos alertas dos ambientalistas, do WWF e da comunidade científica em geral levaram a que fossem tomadas algumas medidas. Na Conferência de Kobe, foi aprovado o primeiro plano mundial para proteger o atum da sobre-
-pesca; entretanto, organizações mundiais como a Comissão Europeia tentam estabelecer planos e regras dentro das suas áreas de actuação, como a definição de quotas de pescado por espécie e país, restrições e regras apertadas para a actividade de aquacultura.

Mesmo assim, as quotas consensualmente estabelecidas encontram-se acima dos limites de sustentabilidade (2) e alguns países continuam a ignorá-las totalmente. Muitas espécies estão já debilitadas (em risco de extinção eminente) ou extintas. Segundo Charles Clover, autor do livro “The End of the Line”, «já não existem espécies saudáveis».

Talvez se tenha encontrado, finalmente, o caminho para o fim do mar. Talvez se vá enfrentar, de uma vez por todas, o gigante tenebroso que a mitologia lá escondeu. Talvez se caminhe, impensadamente, para uma catástrofe já anunciada.

Cabe a todos os ambientalistas, fazer com que a consciência desta situação se generalize. Sem Governos e políticas conscientes, sem uma união de esforços a nível mundial, não se poderá obrigar a indústria pesqueira a moderar a sua actuação. Atingiremos o fim do mar, o ponto crítico, a destruição total e irreversível da biodiversidade marinha.

 

Notas:

(1) Segundo estatísticas da UNFAO (United Nation’s Food and Agriculture Organization), cerca de quatro quintos das populações de pescado ainda existentes são exploradas de forma excessiva.

Estatísticas científicas prevêem ainda que em 2048 todo ou grande parte do pescado existente esteja extinto, sendo que no Sudoeste da Inglaterra as estatísticas apontem para 2018.

(2) A UE estabeleceu uma quota de 20000 toneladas/ano para o atum Rabilho, não obstante informação dos especialistas de que apenas uma quota máxima de 15000 toneladas/ano evitaria o colapso da população."

 

publicado por lookout às 12:38


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